SÓCRATES E A FILOSOFIA COMO ATITUDE CRÍTICA
A filosofia como atitude crítica e questionadora: essa concepção atribui à filosofia o papel de colocar em xeque nossas opiniões e crenças habituais, perguntar sobre seu sentido e fundamento, problematizar o senso comum, buscar alternativas, não aceitar a primeira resposta dada, a solução aparentemente mais fácil e mais óbvia.
A atitude crítica já era um aspecto presente no pensamento dos primeiros filósofos, e não apenas em relação ao que era externo ao seu pensamento (por exemplo, o mito), pois os membros das primeiras escolas filosóficas tinham opiniões discordantes acerca das mesmas questões. É parte da atividade da filosofia, desde a sua origem, o debate.
O maior debatedor de toda a história da filosofia foi certamente Sócrates. Seu próprio método * foi chamado de “refutação”, pois seu objetivo central era justamente contestar * as opiniões infundadas do senso comum. *
Embora remonte a Platão a necessidade de definição do termo “filósofo” e de seus cognatos “filosofia” e “filosofar”, foi Sócrates que, pela primeira vez na história, fez da filosofia uma atividade com objetivos específicos e criou, além disso, um método para realizá-los. Foi ainda Sócrates que fez dessa atividade uma vocação, centrando toda a sua vida em torno dela, dedicando-se diariamente a ela e tendo sido, por ela e em razão dela, condenado à morte. No que consistiu essa atividade é o que veremos com base na obra de Platão, já que Sócrates nunca escreveu nada. * É nos primeiros diálogos de Platão * que encontramos o retrato mais detalhado de Sócrates como filósofo. Outros autores antigos o descrevem *, mas nenhum deles parece ter compreendido como Platão o exercício dessa atividade. *
Foi o modo socrático de filosofar que inspirou Platão a escrever sob a forma de diálogo, de onde ele derivou o nome do seu método, a dialética, que em grego quer dizer justamente “conversação”. A maioria dos diálogos platônicos tem Sócrates como personagem central. * Nos diálogos platônicos, a filosofia socrática traduz-se em termos gramaticais pela pergunta * “o que é X?”, que Sócrates dirige não a qualquer X, mas a valores especificamente humanos, tais como a justiça, o amor, a beleza etc. A pergunta, além de inédita no âmbito da moral, traz em si uma radicalidade embaraçosa: ela quer saber o que é essencialmente cada um desses valores, e não o modo como se manifestam. *
Sócrates percorre diariamente as ruas da Atenas do século V a.C., interrogando insistentemente os cidadãos, chamando sua atenção para a necessidade dessa interrogação. * Sócrates * acaba sempre por abalar as opiniões do senso comum, o que, obviamente, provoca profundo incômodo naqueles que são interrogados. * Sócrates tem tanta consciência de causar incômodo às pessoas que em determinado momento compara a si mesmo a um inseto: “Eu sou o inseto que todos os dias não para nunca de vos despertar, de vos aconselhar, de repreender cada um de vós, e que encontrareis por toda parte pousado perto de vós. Um homem como eu, atenienses, não encontrareis facilmente.”[1] *
Diante do povo ateniense e de um tribunal que o acusa, dentre outras coisas, de corromper a juventude, * Sócrates se defende, dizendo que todas essas coisas são calúnias e que ele se pôs a examinar as pessoas porque decidiu investigar as palavras que a pitonisa do oráculo de Delfos proferiu a seu respeito, quando afirmou que ele era o homem mais sábio do mundo, por ser o único a reconhecer que nada sabe.
Examinando todos os que considerava ‘sábios’ – políticos, oradores, poetas, artífices etc. – Sócrates por fim descobriu que estava enganado, pois aqueles que sabem alguma coisa específica (por exemplo, o poeta sobre poesia) tornam-se presunçosos e acreditam saber todas as coisas, quando na verdade pouco ou nada sabem. E foi o fato de revelar a esses homens sua ignorância que provocou contra ele seu ódio e as calúnias que deram origem às acusações.* O objetivo de Sócrates não é enganar e derrubar o outro, destruindo seus argumentos. Esse é apenas um passo que poderá levar o interrogado a se dar conta da inconsistência dos argumentos que sustentam suas opiniões e crenças, estimulando-o a se envolver também na investigação. * O “sábio”, aquele que não ignora a própria ignorância, não se limita a examinar a si mesmo, mas necessita envolver o não sábio no seu exame. * O que Sócrates quer, portanto, não é simplesmente embaraçar o outro, mas é tornar o embaraço comum.
Nem todos os interrogados, entretanto, se sentem envolvidos em suas questões, apesar do grande poder de persuasão da palavra socrática. Muitos se ofendem ou se irritam, e, embora Sócrates possua um daimon[2], que se manifesta como uma voz interior, sinalizando que ele deve se afastar desse ou daquele interlocutor, muitas vezes o silêncio do daimon, que Sócrates interpreta como um sinal positivo para levar adiante a conversa, não impede que a conversa seja um fracasso.
O reconhecimento da ignorância e o consequente estado * que ele provoca são passos fundamentais do método socrático. Mas devemos ainda nos perguntar: o que ganha aquele que se vê nesta situação? Certamente não se trata de substituir as opiniões dos não sábios pelas opiniões corretas do sábio Sócrates, mesmo porque Sócrates não tem posições definitivas acerca de nenhum assunto; ao contrário, parece estar sempre pronto a refazer suas opiniões.
Sócrates refuta as opiniões porque a refutação, como Platão irá escrever bem mais tarde, é uma forma de purificação das opiniões: “Quando o homem percebe isso (que suas opiniões são contraditórias entre si) fica irritado consigo mesmo e gentil com os outros. Desse modo ele se libera das opiniões autoritárias e inflexíveis *. Assim como os médicos do corpo acreditam que o corpo não pode se beneficiar do alimento que recebe até que os obstáculos internos sejam removidos, assim também aqueles que realizam essa purificação acreditam que a mesma coisa aconteça com a alma. Ela não pode se beneficiar do conhecimento que lhe é oferecido até que um refutador faça o refutado sentir vergonha, liberando-o das opiniões que impedem os conhecimentos e o mostre purificado e pensando que ele sabe apenas o que de fato sabe, e nada mais.”[3]
É muito comum ver nos diálogos platônicos o dogmatismo em que estão mergulhadas as opiniões dos que pensam saber quando na verdade nada sabem. De fato, a irritação e a perplexidade causadas pelo método socrático, e mesmo a indisposição de se submeter a ele, * são apenas demonstrações do desprezo habitual que os homens comuns têm pelo exame de suas opiniões *. Pois que outra razão os faria sentir-se mal ou recusar-se a entrar no drama socrático senão a de que nunca se importaram em examinar se as suas opiniões são ou não são as mais felizes (verdadeiras) com relação a este ou àquele assunto? *
Purificar, liberar as opiniões, desfazer os preconceitos, através do exame e do confronto de discursos, é, portanto, o objetivo final da filosofia socrática. * Ela promove um exercício de lucidez, e dramaticamente revela, aos que finalmente reconhecem a própria ignorância, os limites do conhecimento humano. É a consciência do não saber que caracteriza o filósofo socrático, figura inaugural do filósofo, que influenciou muitas e muitas gerações. Sócrates fornece assim um modelo de filósofo como pensador crítico que interroga e problematiza seus interlocutores, mas que igualmente interroga e questiona a si mesmo, num exercício permanente de reflexão. Segundo sua célebre afirmação *, “a vida não examinada não vale a pena ser vivida”[4].
MARCONDES, Danilo e FRANCO, Irley. A filosofia: O que é? Para que serve? Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p.34, 68, 69, 46 a 51.
*
uma parte do texto foi retirada neste trecho com finalidade didática,
para que o conteúdo apresentado ao aluno fique mais claro.
[1] PLATÃO, Apologia, 30e-31a.
[2] O daimon é um personagem da mitologia grega, que apresenta características e poderes intermediários entre os deuses e os seres humanos, de forma semelhante aos anjos da religião judaico-cristã. Assim como acontece com os anjos da guarda, os daimones eram muitos e cada daimon protegia um ser humano em especial. Devido ao seu forte senso crítico em relação à mitologia grega (uma das acusações contra Sócrates no tribunal foi desrespeito à religião grega tradicional), é duvidoso que Sócrates acreditasse literalmente na existência dos daimones, e para alguns autores trata-se de uma metáfora que Sócrates utilizava para designar o aconselhamento de sua intuição, pois Sócrates “ouvia a voz” de seu daimon, servindo como o seu guia nos momentos difíceis. Em filósofos e comentadores de tendência religiosa, contudo, há uma tendência à crença na existência real da figura do daimon.
[3] PLATÃO, Sofista, 230b-e.
[4] PLATÃO, Apologia, 38a.
A morte de Sócrates, de Jacques-Louis David
A INDEPENDÊNCIA DO FILÓSOFO EM RELAÇÃO AO SENSO COMUM E À MAIORIA IGNORANTE
Decidi visitar o Metropolitan Museum of Art. * Já havia percorrido várias salas * quando meus olhos foram atraídos por um quadro *, A Morte de Sócrates. * A legenda que o acompanhava informava que fora pintado em Paris, durante o outono de 1786, por Jacques-Louis David, na ocasião com 38 anos de idade.
Condenado à morte pelo povo de Atenas, Sócrates, rodeado por um grupo de amigos desolados, prepara-se para beber uma taça de cicuta. Na primavera de 399 a.C., três cidadãos atenienses instauraram um processo contra o filósofo. Acusavam-no de não venerar os deuses da cidade, de introduzir inovações religiosas e de corromper os jovens de Atenas. A gravidade das acusações era de tal ordem que exigia pena capital.
Sócrates reagiu com serenidade absoluta. Apesar de, durante o julgamento, lhe ser dada a oportunidade de renunciar às suas ideias, ele preferiu manter-se fiel à busca da verdade a aceitar uma conduta capaz de o tornar benquisto entre seus inquisidores. Segundo o relato de Platão, ele desafiou o júri com as seguintes palavras:
"Enquanto eu puder respirar e exercer minhas faculdades físicas e mentais, jamais deixarei de praticar a filosofia, de elucidar a verdade e exortar todos que cruzarem meu caminho a buscá-la *. Portanto, senhores *, seja eu absolvido ou não, saibam que não alterarei minha conduta, mesmo que tenha de morrer cem vezes".
E, então, ele foi levado a cumprir seu destino em uma prisão de Atenas. Sua morte assinala um momento definitivo na história da filosofia. *
Testemunha silenciosa da injustiça cometida, Platão está sentado ao pé da cama do mestre. A seu lado, uma pena e um rolo de pergaminho. Platão contava 29 anos quando Sócrates foi executado, mas David o retratou como um ancião circunspecto e grisalho. No corredor ao fundo, carcereiros conduzem Xantipa, a mulher de Sócrates, para fora da cela. Sete amigos apresentam graus variados de consternação. Críton, seu companheiro mais chegado, está sentado a seu lado e contempla o mestre, com devoção e preocupação. Mas o filósofo, cujo torso e os biceps são de um atleta, mantém-se ereto e altivo, sem que se perceba qualquer sinal de apreensão ou arrependimento. O fato de ter sido acusado de louco por um grande número de atenienses não abalou suas convicções. David havia planejado pintar Sócrates no ato de beber o veneno, mas o poeta André Chenier sugeriu que o efeito dramático seria bem maior se ele fosse retratado no momento em que terminava um argumento filosófico e, ao mesmo tempo, recebia com tranquilidade a taça de cicuta que daria fim a sua vida *. Estamos testemunhando os últimos momentos edificantes de um ser extraordinário.
Se o * quadro * me deixou tão vivamente impressionado, talvez seja porque ele retrata um comportamento diametralmente oposto ao meu. Nas conversas, minha prioridade era despertar simpatia, em detrimento da sinceridade. Um desejo de agradar me levava a rir de piadas insossas, como os pais costumam fazer na noite de estreia de uma peça teatral que os filhos representam na escola. Com estranhos, eu adotava as mesmas atitudes servis de um porteiro de hotel, ao cumprimentar hóspedes abastados - um entusiasmo exagerado proveniente de um desejo mórbido e indiscriminado de afeição. Eu não questionava publicamente as ideias adotadas pela maioria. Buscava a aprovação de figuras de autoridade e, sempre que as defrontava, deixava-me consumir pela preocupação de ter, ou não, causado boa impressão. Ao passar pela alfândega ou emparelhar meu carro com uma viatura da polícia, alimentava um anseio confuso de receber algum sinal de aprovação daqueles homens uniformizados.
Mas o filósofo não havia se curvado perante a impopularidade e a condenação do Estado. Não se retratou ou abriu mão de suas ideias por ter sido alvo de reclamações. Além do mais, sua confiança havia se originado de uma fonte mais profunda do que a impetuosidade ou bravura leonina. Ela havia sido fundada na filosofia. A filosofia havia fornecido a Sócrates convicções que lhe possibilitaram demonstrar uma confiança racional, em contraposição à crença histérica, quando se defrontou com a desaprovação. * Tamanha independência de espírito tornou-se uma revelação e um estímulo. Ela me acenou com a possibilidade de utilizar um contrapeso para uma tendência apática de me adequar a práticas e ideias socialmente consagradas. Na vida e na morte de Sócrates havia um convite ao ceticismo inteligente.
Em qualquer sociedade, todos os seus membros têm noções sobre em que devem acreditar e como devem se comportar a fim de evitar desconfiança e impopularidade. Algumas dessas convenções sociais estão formuladas de maneira explícita nas leis, outras estão inscritas de um modo mais intuitivo em um vasto conjunto de critérios éticos e práticos, descritos como "senso comum", que dita o que devemos vestir, que importância deve ser atribuída ao dinheiro, quem devemos estimar, que regras de etiqueta devemos seguir e como nos conduzir em nossas vidas particulares. Começar a questionar estas convenções poderia parecer bizarro ou, até mesmo, ofensivo. Se o senso comum está a salvo de questionamentos, é porque seus critérios são considerados claramente sensatos para que sejam alvo de um exame mais minucioso. *
Não é somente a hostilidade alheia que pode nos impedir de questionar o status quo. Nosso desejo de levantar dúvidas pode ser salpicado por uma sensação íntima de que as convenções sociais devem ter bases sólidas, mesmo se não sabemos discernir exatamente que bases seriam estas pelo fato de terem sido adotadas por tantas pessoas há tanto tempo. Parece implausível que a nossa sociedade esteja profundamente equivocada em suas crenças e, ao mesmo tempo, que seríamos os únicos a perceber este fato. Reprimimos nossas dúvidas e nos incorporamos ao rebanho porque não conseguimos nos imaginar pioneiros na tarefa de desvendar as verdades até agora desconhecidas e dolorosas. *
Sócrates * era baixo, barbudo e careca, seu andar desengonçado e aqueles que o conheceram comparavam-lhe as feições às de um caranguejo, um sátiro ou um grotesco. Seu nariz era achatado, os lábios grossos e um par de sobrancelhas desgrenhadas encimava os olhos esbugalhados. Mas a característica mais curiosa de Sócrates era seu hábito de abordar atenienses de todas as classes, idades e ocupações e pedir-lhes, sem qualquer rodeio ou sem se preocupar se iriam julgá-lo excêntrico ou impertinente, que explicassem em detalhes precisos o porquê de adotarem determinadas crenças do senso comum. *
Se evitamos questionar o status quo é principalmente porque * associamos o que é popular com o que é certo. O filósofo descalço levantava um número incontável de questões para determinar se o que era popular fazia ou não sentido. *
Sócrates era acusado de levantar suspeitas paranoicas a respeito do senso comum e de alimentar um desejo perverso de encontrar alternativas vãs e complicadas. * Mas * nos breves diálogos que travava com vários atenienses, opiniões populares sobre como viver bem, opiniões descritas como normais e, portanto, inquestionáveis pela maioria, revelavam inadequações surpreendentes das quais a atitude confiante de seus proponentes não dava qualquer indicação. * Aqueles com quem Sócrates conversava acabavam por deixar transparecer que mal sabiam do que estavam falando.*
Pessoas podem estar erradas, mesmo quando ocupam posições importantes, mesmo quando estão advogando crenças adquiridas durante séculos por uma vasta maioria. E a razão é simples: estas pessoas não submeteram suas crenças ao crivo da lógica. * Para ressaltar a peculiaridade de sua passividade, Sócrates comparou o ato de viver sem raciocinar de maneira sistemática à prática de uma atividade como a olaria ou a confecção de sapatos sem que se adotem ou mesmo se conheçam as técnicas necessárias para tal. Ninguém jamais iria imaginar que um vaso ou um sapato bem-feitos poderiam resultar apenas da intuição; por que, então, supor que a tarefa mais complexa de se gerir a própria vida poderia ser executada sem qualquer reflexão contínua e sistemática sobre suas premissas e objetivos? * Sócrates nos encoraja a não nos deixar abater pelo ar confiante das pessoas *. Aquilo que é rotulado de óbvio e "natural" raramente o é. O reconhecimento deste fato deveria nos ensinar a achar que o mundo é mais flexível do que parece, pois as opiniões consagradas frequentemente não surgem de um processo de raciocínio irrepreensível e sim de séculos de desordem intelectual. Talvez não existam bons motivos para que as coisas permaneçam como estão. *
Se não podemos estar à altura de tamanha serenidade, se estamos propensos a irromper em lágrimas diante de meia dúzia de palavras ásperas sobre nosso caráter ou nossas conquistas, talvez seja porque a aprovação alheia forma uma parte essencial da nossa capacidade de acreditar que estejamos certos. Encontramos uma justificativa para levar a sério a impopularidade não apenas por razões pragmáticas, por razões que digam respeito a promoções ou à sobrevivência, mas principalmente porque ser alvo de zombarias pode parecer um sinal inequívoco de que estamos no caminho errado.
Naturalmente Sócrates teria admitido que há momentos em que procedemos mal e devemos ser forçados a duvidar de nossos próprios pontos de vista, mas ele teria acrescentado um detalhe vital capaz de modificar nossa noção de relação da verdade com a impopularidade: os erros em nosso modo de pensar e em nosso modo de vida não podem, em nenhuma circunstância, ser apontados como erros pelo simples fato de encontrarmos qualquer tipo de oposição.
O que deveríamos nos preocupar não é o número de pessoas que nos contradizem, mas sim se estas pessoas possuem ou não boas razões para agir desta forma. Deveríamos, portanto, desviar nossa atenção da presença da impopularidade e nos concentrar nas explicações para ela. *
A verdadeira respeitabilidade não se origina da vontade da maioria e sim de uma argumentação adequada. Quando estamos fazendo vasos, devemos ouvir os conselhos daqueles que sabem transformar o verniz em Fe3O4, a uma temperatura de 800 graus[1]; quando estamos construindo um navio, é o veredicto dos que constroem trirremes[2] que deve nos preocupar; e quando estamos considerando temas éticos - como ser feliz e corajoso, justo e bom - não devemos nos intimidar por julgamentos inapropriados *.
Parecia elitista e verdadeiramente o era. Nem todos merecem atenção. No entanto, o elitismo de Sócrates não continha vestígios de esnobismo ou preconceito. É possível que, para ser fiel ao que professava, ele tenha discriminado alguém, mas a discriminação não se baseava em classe social ou dinheiro, nem na nacionalidade do indivíduo ou em seu currículo militar ilibado. Sócrates baseava-se na razão, que era - conforme enfatizava - uma faculdade acessível a todos. * O valor da crítica irá depender do processo de pensamento de quem o emite e não de quantos a emitem ou da posição social que ocupam. *
Sócrates * durante toda a sua vida * se levantou ao amanhecer com o objetivo de travar conversas com os atenienses; sabia como suas mentes funcionavam e havia constatado com pesar que muitas vezes eram incapazes de raciocinar com critério, embora jamais houvesse perdido a esperança de que um dia conseguiriam. Ele havia observado em seus interlocutores uma tendência para adotar pontos de vista governados por impulsos e seguir opiniões já consagradas pela maioria sem questioná-las. Não era por arrogância que ele tinha isto em mente no momento em que sofria oposição extrema. Ele possuía a autoconfiança de um homem racional que percebe que seus inimigos estão propensos a não refletir de maneira adequada, apesar de ele próprio jamais ter afirmado que seus próprios julgamentos eram infalíveis. *
Entretanto, existe o perigo de que a morte de Sócrates venha a nos seduzir por razões equivocadas. Ela pode fomentar uma crença sentimentalista em uma relação segura entre ser odiado pela maioria e estar com a razão. Parece ser o destino dos gênios e santos sofrer a incompreensão de seus contemporâneos e, mais tarde, merecer estátuas *. Talvez não sejamos gênios ou santos. Talvez estejamos simplesmente adotando atitudes desafiadoras sem nos preocuparmos em fundamentar nossos bons motivos e infantilmente pondo em dúvida nossas próprias convicções sempre que os outros nos tiram a razão.
Não era esta a intenção de Sócrates. Seria tão ingênuo acreditar que a impopularidade é sinônimo da verdade quanto acreditar que é sinônimo de erro. A validade de uma ideia ou ação é determinada não pelo fato de ser amplamente aceita ou amplamente rejeitada, mas pelo fato de obedecer ou não as regras da lógica. Não é porque uma argumentação é censurada pela maioria que ela está errada, nem para aqueles que adotam uma atitude heróica de desafio, que está correta. O filósofo nos ofereceu uma solução para duas poderosas ilusões: devemos sempre, ou não devemos nunca, dar ouvidos aos ditames da opinião pública. Para seguir seu exemplo, seremos mais bem recompensados se nos esforçarmos para ouvir sempre os ditames da razão.
BOTTON, Alain de. As consolações da filosofia. Rio de
Janeiro: Rocco, 2001. p. 9 a 53.
[1] Descrição dos processos químicos e físicos presentes na criação de peças na olaria ou cerâmica, em que o barro ou a argila são transformados em tijolos, telhas, ladrilhos, vasos etc. Trata-se de um conhecimento técnico que, segundo Sócrates, exemplifica a necessidade de uma "especialização", isto é, uma reflexão habitual e metódica, um aperfeiçoamento sistemático, racional e prolongado. Na ética socrática, devemos empreender uma atitude semelhante, em contraste com a ação irrefletida, automática, orientada passivamente pelo senso comum.
[2] A trirreme era um tipo de navio grego, usado frequentemente na guerra. Trata-se de outro exemplo socrático de conhecimento racional e especializado, pois não se constrói uma trirreme por meio de intuição ou improvisação.
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