Sócrates ouve * a verdade de Apolo: "Sócrates é o homem mais sábio entre os homens". Espantado, * procura os homens que julgava sábios (políticos e poetas, cuja função é ensinar e guiar os outros), consulta-os para que lhe digam o que é a sabedoria. Descobre, porém, que a sabedoria deles era nula. Compreende, então *: "Agora já sabes porque és o mais sábio de todos os homens". Sócrates compreende, enfim, que nenhum homem sabe verdadeiramente nada, mas, o sábio é aquele que reconhece isto. O início da sabedoria é, pois, "sei que nada sei".
Se assim é, a inscrição no pórtico do templo de Apolo - "Conhece-te a ti mesmo" - significa que o conhecimento não é um estado (o estado da sabedoria), mas um processo, uma busca, uma procura da verdade. Eis o motivo que leva Sócrates a praticar a filosofia como missão: a busca incessante da sabedoria e da verdade e o reconhecimento incessante de que, a cada conhecimento obtido, uma nova ignorância se abre diante de nós. Isto não significa que a verdade não exista, e sim que deve ser sempre procurada e que sempre será maior do que nós.
CHAUI, Marilena. Introdução à história da filosofia, vol. I. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 142.
O EFEITO DUNNING-KRUGER: POR QUE AS PESSOAS FALAM SEM TER NENHUM CONHECIMENTO?
Você dirige melhor que os outros? É melhor no trabalho que os inúteis dos seus colegas? É mais inteligente que a média? Seus tuítes são mais engraçados que os desses tuitstars da moda?
Não serei eu que vou questionar suas capacidades, mas é possível que você seja vítima do efeito Dunning-Kruger. Ou seja: tendemos a superestimar nossas aptidões sociais e intelectuais, como explica o vídeo TED abaixo *. O vídeo integra a série TED, que explica ideias em poucos minutos, e foi produzido com a colaboração do próprio David Dunning, um dos psicólogos que deram nome a essa “superioridade ilusória” num estudo publicado em 1999. Essa crença é tão difícil de evitar que chega a “transgredir as leis da matemática”, diz o vídeo. Por exemplo, quando os pesquisadores pediram que engenheiros de software qualificassem seu próprio trabalho, mais de 30% disseram fazer parte dos 5% melhores da empresa. Segundo outro estudo, 88% dos motoristas norte-americanos afirmam dirigir melhor que a média.
Os que mais tendem a ter melhor ideia sobre si mesmos são, exatamente, os menos capacitados: quanto menos sabemos sobre um tema, mais tendemos a achar que sabemos o suficiente. Já os especialistas tendem a subvalorizar ligeiramente suas aptidões. De fato, em alguns estudos, os mais ignorantes julgavam saber quase tanto quanto esses entendidos.
O erro dos especialistas, claro, também é interessante: não é que julguem saber menos que os demais; simplesmente pensam, com frequência, que os outros também sabem bastante sobre o tema que dominam.
Certamente, não podemos dizer que os que mais falam são sempre os que menos sabem. Mas é muito difícil não cometer esse erro às vezes. “Não se trata de resultados isolados. Tendemos a nos superestimar em todas as áreas, incluindo a saúde, a capacidade de liderança e a ética”, diz o vídeo.
Não sabemos o que ignoramos
A que se deve esse efeito? Como explica o próprio Dunning num artigo publicado na revista Pacific Standard, as pessoas menos qualificadas num setor nem sequer têm a experiência necessária para saber o que estão fazendo de errado.
Não só isso: uma mente ignorante não é vazia, e sim repleta de ideias preconcebidas, experiências, fatos, intuições, vieses e pressentimentos, além de conceitos que importamos de outras áreas do conhecimento. Com tudo isso, construímos histórias e teorias que nos dão a impressão de serem um conhecimento confiável.
E, de fato, confiamos nelas: um estudo da Universidade Yale mostrou que a maioria das pessoas não sabe quase nada sobre nanotecnologia. Isso é normal. O que não é tão normal é que quase ninguém hesitava em opinar se os benefícios dessa tecnologia compensavam os riscos.
Como disse Dunning numa ocasião, a conclusão de seu estudo é que desconhecemos os limites de nossa incompetência, não a dos outros. A graça então não é identificar as vítimas desse erro, e sim levar em conta que é muito provável que nós o estejamos cometendo em algum aspecto de nossas vidas, sem nem ao menos saber.
E não se trata apenas de jogar xadrez pior do que pensamos. Ou de expressar, por algum motivo, opiniões muito veementes sobre a nanotecnologia. Na verdade, esse efeito pode ser muito perigoso. Dunning recorda que a bolha financeira de 2008 foi causada pelas “maquinações feitas pelos operadores financeiros e a ignorância dos consumidores”. Segundo um estudo de 2012, 23% dos norte-americanos entrevistados que haviam se declarado recentemente falidos deram a si mesmos a nota máxima em conhecimentos de finanças.
Eu poderia ser presidente?
Esse efeito é conhecido desde 1999, mas, se analisamos o gráfico de buscas do Google, vemos que o interesse cresce sobretudo a partir de 2010 e 2011. Será que o fato de ler muitas opiniões alheias nas redes sociais nos faz acreditar que os outros são vítimas desse erro, talvez sem percebermos que nós também poderíamos ser?
Segundo o Google, depois de “efeito” e “síndrome”, o termo que mais é associado nas buscas a “Dunning-Kruger” é "Donald Trump". São muitos os artigos que usam o presidente dos Estados Unidos como exemplo de como esse erro pode ser perigoso. Numa entrevista, o próprio Dunning concordou com essa ideia. No entanto, e também como admitiu esse psicólogo, o fato de que todos pensássemos que Trump perderia as eleições foi um exemplo do “efeito Dunning-Kruger”. Ninguém está livre desse efeito, por mais esperto que seja. Ou melhor, por mais esperto que acredite ser.
Jaime Rubio Hancock 30 nov. 2017. Site do jornal El País - Brasil
https://brasil.elpais.com/brasil/2017/11/29/economia/1511971499_225840.html (acessado em 12/01/2021)
SÓ NÃO SEI QUE NADA SEI: PESQUISA MOSTRA QUE AS PESSOAS REALMENTE NÃO TÊM NOÇÃO DA PRÓPRIA IGNORÂNCIA E, QUANDO ERRAM, ERRAM COM CONVICÇÃO
Na última campanha eleitoral, muito marqueteiro experiente se aproveitou da guerra de informações falsas para – não fique surpreso – manipular dados e convencer o eleitor a votar no seu candidato. Mas uma pesquisa feita pela consultoria britânica Ipsos Mori e divulgada depois das eleições deixou claro que o problema da desinformação atinge o resto do mundo também.
O instituto responsável pelo estudo descobriu que boa parte das pessoas (e você provavelmente se inclui nesse grupo) está errada sobre quase tudo. Os participantes da pesquisa precisavam estimar vários índices sociais dos seus países, como taxas de criminalidade, de desemprego e de imigração. E a maioria não só errou, mas errou por muito. “As pessoas não levaram em conta o fato de nunca terem tido acesso a essas estatísticas, e deviam ter sido bem mais cautelosas em suas estimativas”, diz o professor de psicologia David Dunning, da Universidade Cornell, em Nova York. *
Quando as pessoas se veem diante de dados concretos, costumam não dar lá muita bola. Mas quando ouvem uma história contada por uma pessoa próxima, que pode estar falando a verdade ou espalhando um boato sobre, por exemplo, o corte de políticas de assistência social do governo, aí sim a coisa adquire outro significado, mais real e importante. “Podemos ouvir uma história que até é verdadeira, só que incrivelmente rara e não representativa, mas ela vai colar de um jeito que uma estatística mais abrangente não conseguiria”, diz Duffy.
The Chelsea Clintons
Com as pontas dos cabelos pintadas de verde e pulseirinhas coloridas, a menina primeiro faz cara de dúvida, mas logo em seguida já está rindo, mascando seu chiclete com força e esbanjando confiança em frente a uma câmera. O repórter quer saber se ela conhece a banda The Chelsea Clintons. “Conheço a música deles. Não sei se vou ao show, mas conheço”, diz a jovem. E do que ela mais gosta na banda? “São divertidos. Passam uma energia boa, você nota que essa sensação vem de um lugar bom, poucas bandas conseguem passar isso.”
O curioso é que a banda não existe, nunca existiu, foi inventada apenas com o propósito de pescar sabichões por aí. Cenas como essa, do talk show Jimmy Kimmel Live!, são famosas no YouTube. Mas você certamente já pegou no flagra algum amigo ou conhecido arrotando conhecimentos inexistentes para se passar por entendido. Mostrar-se inteligente e posar de bem informado e engajado é característico da condição humana, afirma o professor Dunning.
Ele passou anos estudando e pesquisando comportamentos cognitivos para descobrir que nossa burrice é convicta. Com a ajuda de outros psicólogos, promoveu uma série de entrevistas semelhantes ao quadro de Jimmy Kimmel. Dunning perguntava aos entrevistados se eles tinham familiaridade com conceitos de física, biologia, política e geografia. Um expressivo número alegou familiaridade com termos genuínos como “força centrípeta” e “fóton”. Mas também afirmaram que conheciam coisas inventadas, como “pratos de parallax”, “ultra-lipid” e “cholarine”. “As pessoas não têm um índice interno expressamente separado do que elas sabem versus o que elas não sabem”, explica o professor. E, quanto mais confiança ao responder a uma pergunta, maior é a probabilidade de a resposta estar errada, como mostra a pesquisa do Ipsos Mori (veja abaixo).
O problema é que as pessoas tomam decisões a partir do que acham que sabem, em vez de basear-se nos fatos verdadeiros que desconhecem. É o que chamamos de efeito Dunning-Kruger: a incapacidade de perceber os limites do próprio conhecimento, que leva indivíduos com menos informação a acreditarem que sabem mais do que aqueles realmente entendidos. Os portadores dessa "síndrome" receberam de Dunning o carinhoso apelido de “idiotas confiantes”. “Os incompetentes são frequentemente abençoados com uma confiança inadequada, afiançada por alguma coisa que, para eles, parece conhecimento.”
Thiago Souza de Souza 20 jan 2015 Site da revista Galileu.
https://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2015/01/so-nao-sei-que-nada-sei.html (acessado em 12/01/2021)
TRÊS VERSÕES DO GRÁFICO DE
DESENVOLVIMENTO INTELECTUAL DE
DUNNING-KRUGER
O ORÁCULO DE DELFOS:
Localização do Oráculo de Delfos na antiga Grécia:
Falhas tectônicas que deram origem aos vapores narcóticos do Oráculo de Delfos:
Pítia ou pitonisa, sacerdotisa do Oráculo de Delfos, sentada sobre a trípode e aspirando os vapores sagrados vindos do subsolo:
Ruínas atuais do Oráculo de Delfos:
Faça uma pergunta online para o I CHING, O LIVRO DAS MUTAÇÕES, um "livro-oráculo" chinês muito mais antigo que o Oráculo de Delfos, e que também se dispõe a "responder" todas as perguntas humanas: Link aqui
JASPERS, Karl. Iniciação filosófica. Lisboa: Guimarães, 1960. p.15.
A palavra filosofia é grega. É composta por duas outras: philo e sophia. Philo deriva-se de philia, que significa amizade, amor fraterno, respeito entre iguais. Sophia quer dizer sabedoria e dela vem a palavra sophos, sábio.
Filosofia significa, portanto, amizade pela sabedoria, amor e respeito pelo saber. Filósofo: o que ama a sabedoria, tem amizade pelo saber, deseja saber.
Assim, filosofia indica um estado de espírito, o da pessoa que ama, isto é, deseja o conhecimento, o estima, o procura e o respeita.
Atribui-se ao filósofo grego Pitágoras de Samos (que viveu no séc. V antes de Cristo) a invenção da palavra filosofia. Pitágoras teria afirmado que a sabedoria plena e completa pertence aos deuses, mas que os homens podem desejá-la ou amá-la, tornando-se filósofos.
CHAUI, Marilena.Convite à filosofia. Ed. Ática, São Paulo, 1994. p. 19.
[1]Sophos : Transliteração da palavra “sábio”, em grego.
O ALVO representa a sabedoria absoluta, divina, verdade plena e completa que está além da capacidade humana de compreensão.
A FLECHA representa a filosofia, meramente humana, e portanto limitada, que procura se aproximar o máximo que puder do alvo, embora sem nunca conseguir alcançá-lo completamente.
O ARCO representa a ignorância que, quando se dá conta de si mesma, impulsiona o filósofo à busca pela sabedoria e, quando não se dá conta de si mesma, já não é capaz de impulsioná-lo.
O ELEFANTE representa a verdade absoluta, ou o divino, que, em sua plenitude, é inacessível ao conhecimento humano.
OS CEGOS representam os falsos sábios que desconhecem a sua ignorância fundamental a respeito da verdade absoluta, e por isso querem impor aos outros por meio da violência sua concepção de verdade.
O GURU representa o filósofo que, reconhecendo sua ignorância, procura se aproximar o máximo que é possível a um ser humano da verdade absoluta.
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