Parte 1 Nietzsche e o relativismo link aqui
Parte 2 Nietzsche e o perspectivismo
NIETZSCHE E O RELATIVISMO
“Relativismo” * supõe que não existe uma realidade única e acabada, mas muitas e diversas realidades. Não existe nunca um mundo em si, mas sempre variados mundos, cujos sentidos dependem da relação histórica, espacial, cultural e social, enfim, das múltiplas interpretações que o homem faz através do pensamento e da linguagem. No relativismo não existe uma medida única para avaliar a veracidade de um discurso; é preciso considerar o contexto, as diferentes perspectivas. “Não existem fatos, só interpretações”, diz Nietzsche *. A lei da gravidade não é um elemento intrínseco da natureza, mas um modelo construído para explicá-la, podendo ser corrigido ou até abandonado no futuro. Não há teoria ou interpretação que possa se justificar como absoluta. A frase “está chovendo agora” pode ser correta em um determinado contexto e errônea em outra. *
A vantagem do relativismo é a tolerância com a alteridade. Os discursos diferentes não são classificados como erro ou desvio, mas aceitos como discursos da diferença. A diversidade de perspectivas é uma característica inerente ao mundo humano. Nenhuma é mais verdadeira do que a outra, somente mais apropriada segundo o momento histórico, o contexto cultural, geográfico etc. *
Uma das desvantagens do relativismo é que não há nunca um critério último que dê garantia absoluta para as situações de impasse. Se existem várias perspectivas, todas com igual direito de ser, então é necessário fazer escolhas baseadas apenas nas condições da situação, assumindo os riscos de soluções de validade passageira. Tal atitude exige mais consciência e mais responsabilidade, enfim, é mais trabalhosa. Infelizmente o ser humano parece preferir sempre o mais leve e o mais fácil, na forma de certezas permanentes sobre o que é verdadeiro, bom e belo. Devido à falta de uma medida absoluta, reina um certo medo de que a relatividade das verdades transforme-se em uma indeterminação. Se não há fatos, nem coisas em si, então todo discurso é verdadeiro, tudo vale, ou o que dá no mesmo, nada vale, nada é verdadeiro. Qualquer afirmação, mesmo a mais disparatada ou a mais antissocial, ganha o direito de se expor. Ideologias excludentes entre si, tais como a democracia ou o fascismo, parecem ter o mesmo valor. Trata-se, entretanto, de uma visão ingênua e simplificadora do relativismo. O fato de não se aceitar uma verdade absoluta não implica * a negação radical de todas as afirmações. Há limites para o relativismo, e um deles é a completa recusa de todo discurso que arrogue para si o direito de ser o único *. Nesse sentido, o relativismo é um ato de resistência contra qualquer pensamento homogeneizante, seja na política, na ciência ou na arte.
FEITOSA, Charles. Explicando a filosofia com arte. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004. p. 46, 48, 52, 54.
PERSPECTIVISMO EM NIETZSCHE
Perspectivismo: conceito que aparece em Nietzsche e está relacionado à crítica da verdade e à teoria do conhecimento em geral. Para Nietzsche, não existe um conhecimento absoluto ou completamente objetivo, mas, ao contrário disso, todo conhecimento é condicionado por múltiplos aspectos: psicológicos, históricos, culturais, econômicos etc. *
Nem nossa vontade nem nosso entendimento (e, por consequência, nem nosso conhecimento) estão livres de nossos valores, crenças e preferências, ou seja, do modo como vemos e sentimos as coisas. Isso não quer dizer exatamente que o conhecimento seja falso ou que não exista nenhum grau de certeza nele, mas, sim, que todo saber tem um aspecto inexoravelmente subjetivo. Isso faz de qualquer conhecimento, por mais próximo que esteja da realidade *, um tipo de interpretação, uma forma de leitura que não está isenta de tudo o que nos constitui como seres individuais e sociais.
Dizer que tudo é uma questão de perspectiva quer dizer, entre outras coisas, que existem muitas maneiras de ver e conceber uma mesma coisa. A verdade absoluta seria, nesse caso, um quimera ou simplesmente a imposição de um sentido único e arbitrário para alguma coisa. De fato, para Nietzsche, a verdade não deixa de ser o resultado de um embate de forças, a expressão da força vitoriosa que (na luta com outras forças) domina um campo social.
SCHÖPKE, Regina. Dicionário filosófico: conceitos fundamentais. São Paulo: Martins Fontes, 2010. p. 190.
Perspectivismo: concepção segundo a qual toda verdade só o é a partir * de uma perspectiva particular. Essa perspectiva pode ser * produzida por coisas como a natureza do nosso aparelho sensorial, ou pode ser concebida como algo determinado pela cultura, pela história, pela linguagem, pela classe ou pelo sexo. Já que podem existir muitas perspectivas, existem muitas famílias diferentes de verdades. O termo é frequentemente aplicado à filosofia de Nietzsche.
BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. p. 296.
NIETZSCHE E O MULTPERSPECTIVISMO
Ver assim diferente, querer ver assim diferente, é uma grande disciplina e preparação do intelecto *. Não é * “observação desinteressada” (um absurdo sem sentido), mas * saber utilizar em prol do conhecimento a diversidade de perspectivas e interpretações afetivas. De agora em diante, senhores filósofos, guardemo-nos bem contra a antiga, perigosa fábula conceitual que estabelece * “razão pura”, “espiritualidade absoluta”, “conhecimento em si”; - tudo isso pede que se imagine um olho * absurdo e sem sentido. Existe apenas * visão perspectiva, apenas um “conhecer” perspectivo; e quanto mais afetos permitirmos falar sobre uma coisa, quanto mais olhos, diferentes olhos, soubermos utilizar para essa coisa, tanto mais completo será nosso “conceito” dela *. Mas eliminar a vontade inteiramente, suspender os afetos todos sem exceção, supondo que o conseguíssemos: como? – não seria castrar o intelecto?...
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 108 e 109.
Um estudo cultural * “multiperspectívico”; palavra esta que é comprida e feia, mas ainda o melhor conceito que encontramos para descrever o tipo de estudo cultural que estamos tentando desenvolver. * Em termos simples, um estudo cultural multiperspectívico utiliza uma ampla gama de estratégias textuais e críticas para interpretar, criticar e desconstruir as produções culturais em exame. O conceito inspira-se no perspectivismo de Nietzsche, segundo o qual toda interpretação é necessariamente mediada pela perspectiva de quem a faz, trazendo, portanto, em seu bojo, inevitavelmente, pressupostos, valores, preconceitos e limitações. * Devemos aprender “como empregar várias perspectivas e interpretações a serviço do conhecimento”. Para Nietzsche, “só há visão em perspectiva, só saber em perspectiva; e quanto mais sentimentos deixarmos que falem sobre uma coisa, mais completo será * o nosso ‘conceito’ dessa coisa *”. Expandindo esse convite à interpretação multiperspectívica, * Nietzsche argumenta: “cada elevação do homem traz consigo a superação de interpretações mais estreitas; esse fortalecimento e esse aumento de poder abrem novas perspectivas e significam a crença em novos horizontes”.
KELLNER, Douglas. A cultura da mídia. Bauru, SP: EDUSC, 2001. p. 129 e 130.
ORIGEM ETIMOLÓGICA DA PALAVRA FILOSOFIA EM NIETZSCHE
Filosofia – “o amor à sua sabedoria”, tomando a palavra no sentido correto e justo *. Serão novos amigos da “verdade” estes filósofos vindouros? Muito provavelmente: pois até agora todos os filósofos amaram suas verdades. Mas com certeza não serão dogmáticos. Ofenderia seu orgulho, e também seu gosto, se a verdade fosse tida como verdade para todos: o que sempre foi, até hoje, desejo e sentido oculto de todas as aspirações dogmáticas. “Meu juízo é meu juízo: dificilmente um outro tem direito a ele” – poderia dizer um filósofo do futuro. É preciso livrar-se do mau gosto de querer estar de acordo com muitos. “Bem” não é mais bem quando aparece na boca do vizinho. E como poderia haver um “bem comum”? O termo se contradiz: o que pode ser comum sempre terá pouco valor.
NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 13 e 47.
Os espíritos muito livres, os filósofos do futuro, permanecerão fiéis à sua vocação para a “filo sofia”, continuarão sendo amantes da verdade, como até agora foram todos os autênticos filósofos. Porém seguramente não serão dogmáticos: eles se manterão sobretudo zelosos de “sua” verdade, e não de uma “verdade para qualquer um” – pois essa foi a * aspiração de todos os dogmáticos. *
GIACOIA JUNIOR, Oswaldo. Nietzsche & Para além do bem e do mal. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002. p. 41.
MULTIPERSPECTIVISMO:
FAKE NEWS: NIETZSCHE PROVAVELMENTE AS ENTENDERIA COMO VERDADES DE POUCO VALOR. POR QUÊ?
1 - MUITAS VEZES NÃO SÃO SINCERAS, ISTO É, NÃO CORRESPONDEM A UMA CRENÇA AUTÊNTICA NAQUILO QUE É AFIRMADO
2 - FREQUENTEMENTE NÃO SÃO MULTIPERSPECTIVISTAS, ISTO É, RECUSAM-SE A VER O MUNDO DE UMA OUTRA FORMA QUE NÃO SEJA A DA PERSPECTIVA ABSOLUTISTA DA MINHA OPINIÃO, OU DA OPINIÃO DO MEU GRUPO.
3 - FREQUENTEMENTE, SÃO FRUTO DA MANIPULAÇÃO DE POUCOS (QUE NÃO ACREDITAM NA SUA VERACIDADE) SOBRE MUITOS (QUE ACEITAM ESTA VERACIDADE DE FORMA SUBMISSA, IRREFLETIDA E ACRÍTICA).
EXERCÍCIOS PARA TREINAR O PERSPECTIVISMO:
Respostas no final do módulo
PERSPECTIVISMO JORNALÍSTICO SOBRE O ABORTO - LINK AQUI
PERSPECTIVISMO JORNALÍSTICO SOBRE DROGAS ILÍCITAS - LINK AQUI
PERSPECTIVISMO JORNALÍSTICO SOBRE HOMOSSEXUALIDADE - LINK AQUI
Informações úteis para o comentário escrito:
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<i> conteúdo </i> – transforma o conteúdo em itálico.
































































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